quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Construir um SUAS sem Racismo: Por que essa agenda é urgente e o que o Brasil já aprendeu até aqui.

Falar sobre racismo no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) não é um tema “extra”, nem um debate restrito a datas comemorativas. É, na verdade, uma necessidade estruturante, sobretudo porque quem chega aos equipamentos da Assistência Social é, em grande parte, a população negra.
Segundo dados recentes do Cadastro Único, 69% das pessoas inscritas se autodeclaram pretas ou pardas. Quando olhamos para as famílias quilombolas e as de comunidades de terreiro, esse percentual é ainda maior: chega a 92% entre quilombolas e 83% nas comunidades de terreiro. Esses números não são por acaso; refletem um país construído em cima de desigualdades históricas, econômicas e raciais que atravessam gerações.
Por isso, pensar em um SUAS antirracista significa, antes de tudo, reconhecer: não existe justiça social sem justiça racial.
Da universalização ao reconhecimento da diversidade: uma mudança necessária
As primeiras normas da Assistência Social, como a LOAS, em 1993, apontavam a igualdade e a não discriminação como princípios estruturantes. Mas não tratavam diretamente de raça, cor ou etnia. Era uma perspectiva universalista: todos devem ser atendidos de acordo com suas necessidades.
Com o passar dos anos, percebeu-se que tratamento igual para pessoas desiguais não produz equidade. Enquanto isso, os dados mostravam que a pobreza, a vulnerabilidade e a ausência de direitos tinham cor no Brasil: eram, majoritariamente, realidades de pessoas negras.
A partir dos anos 2000, especialmente com a criação da SEPPIR e do Estatuto da Igualdade Racial, a agenda étnico-racial passou a ganhar espaço dentro do SUAS. Normas como a Tipificação Nacional e a NOB-RH começaram a reconhecer povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, exigindo abordagens diferenciadas, qualificação das equipes e metodologias de trabalho culturalmente sensíveis.
Mas o grande avanço chega com o II Plano Decenal de Assistência Social (2016-2026), que finalmente: cita explicitamente a população negra, reconhece desigualdades estruturais, menciona povos ciganos, comunidades tradicionais de matriz africana e de terreiro e aponta o racismo como fator que agrava vulnerabilidades.
É um marco: o SUAS passa a admitir que não basta atender é preciso enfrentar desigualdades estruturais.
SINAPIR, PPA e pactos internacionais: por que a intersetorialidade importa
O SUAS não enfrenta o racismo sozinho. Ele faz parte de um ecossistema maior, que inclui:
o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR),
o Plano Plurianual (2024-2027), que tornou a igualdade racial um eixo transversal,
pactos globais, como a Década Internacional dos Afrodescendentes,
e legislações estruturantes, como a Lei de Cotas e a Lei 14.532/2023, que reconhece a injúria racial como crime de racismo.
Essa articulação é essencial porque o racismo é um fenômeno multiforme. Ele aparece: na moradia, na renda, nas ofertas territoriais, no acesso a serviços públicos, e até no modo como políticas são planejadas.
Por isso, uma atuação intersetorial fortalece o SUAS, amplia o alcance das ações e evita que a agenda racial se limite ao discurso.
Quem são as famílias negras no Cadastro Único? O retrato das desigualdades
A análise do CadÚnico mostra que a população negra não é apenas maioria numérica ela é a maioria entre os mais pobres. Entre os destaques:
1. Famílias chefiadas por mulheres negras
As famílias monoparentais femininas são expressivas e carregam sobreposições de desigualdades. Entre as famílias negras: mais de 50% têm mulheres como responsáveis e a vulnerabilidade tende a ser maior quando há crianças pequenas.
2. Quilombolas e comunidades de terreiro
Esses grupos apresentam características marcantes: arranjos familiares mais unipessoais, especialmente nas comunidades de terreiro (45%), renda per capita muito baixa, acesso mais difícil a políticas públicas por barreiras territoriais, culturais e sociais
3. Distribuição regional
A presença de famílias negras é muito maior no Norte e Nordeste, especialmente no Pará, Maranhão e Bahia. São territórios onde a desigualdade racial e socioeconômica se entrelaça profundamente.
Por que o SUAS precisa falar e agir sobre racismo?
Ignorar essa relação é ignorar a raiz de boa parte das situações atendidas nos CRAS, CREAS e outros equipamentos. Um SUAS que deseja ser universal, equânime e garantidor de direitos não pode fechar os olhos para o fato de que: a maior parte das famílias acompanhadas é negra; a violação de direitos tem cor e a pobreza, no Brasil, não é apenas econômica é histórica, racial e estrutural.
É sobre enxergar, no cotidiano dos CRAS, CREAS, abrigos e serviços, que a desigualdade racial atravessa histórias, trajetórias e territórios.
É sobre garantir que a proteção social chegue com respeito, reconhecimento e justiça.
É sobre assumir um compromisso ético: que todo cidadão, especialmente os que o Brasil historicamente marginalizou, tenha seus direitos protegidos de mãos estendidas, e não de olhos fechados para sua realidade.

Porque o racismo produz vulnerabilidades.
E as vulnerabilidades produzem demandas que chegam ao SUAS.

Construir um SUAS antirracista não é sobre criar uma política paralela.
É sobre qualificar a política que já existe.

Clique no link e baixe o artigo e saiba mais sobre o assunto: Desafios para construção de um SUAS sem Racismo: Assistência Social e população negra no Brasil

https://novoead.cidadania.gov.br/system/file/get/1784whzxefuqujiew7dc/Desafios%20para%20construcao%20de%20uma%20SUAS%20sem%20racismo.pdf

Trabalho Social com Famílias e Territórios: Como a Trilha 1 Fortalece a Atuação do PAIF e o Entendimento das Condicionalidades do Programa Bolsa Família

O Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) é um dos pilares da Política Nacional de Assistência Social e está presente no cotidiano dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) em todo o Brasil. Muito além de atendimentos pontuais ou administrativos, o PAIF representa um compromisso contínuo com a proteção social básica, o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários e a construção de estratégias coletivas contra as vulnerabilidades sociais.

Nos últimos anos, com a ampliação dos programas de transferência de renda, especialmente o Programa Bolsa Família, muitas ações nos CRAS passaram a ser fortemente associadas ao acompanhamento de condicionalidades. Essa associação, embora compreensível, trouxe um desafio: como evitar que o trabalho social com famílias seja reduzido a uma lógica burocrática, individualizada ou punitiva?

É justamente para qualificar esse debate que surge a Trilha 1: Trabalho Social com Famílias e Territórios no PAIF – Contexto das Condicionalidades do Programa Bolsa Família, uma ferramenta que oferece suporte conceitual e metodológico aos profissionais do SUAS.

Por que falar em “contexto das condicionalidades”?

As condicionalidades do Bolsa Família são compromissos nas áreas de educação, saúde e assistência social que têm como objetivo garantir acesso a direitos. No entanto, o acompanhamento dessas condicionalidades não pode ser entendido como uma intervenção isolada, nem se limitar a “verificar cumprimento”.

A Trilha 1 reforça que:

  • As condicionalidades devem ser vistas no contexto das vulnerabilidades e potencialidades das famílias e dos territórios, e não como um checklist administrativo.

  • O papel do CRAS não é punir ou restringir, mas compreender, acolher, orientar e apoiar.

  • O acompanhamento é apenas uma porta de entrada para aprofundar vínculos, construir confiança e fortalecer a autonomia das famílias.

Assim, o material destaca a necessidade de superar práticas fragmentadas e retomar o caráter integral do PAIF, que valoriza a história, os saberes e a organização das comunidades.

Trabalho Social com Famílias: mais que atendimentos, uma construção coletiva

A Trilha 1 aponta uma mudança fundamental: o trabalho social com famílias deve deixar de ser centrado apenas em atendimentos individuais para incorporar práticas coletivas, participativas e territorializadas.

Isso significa criar oportunidades para que as famílias: compartilhem vivências, troquem saberes, construam redes de apoio, se reconheçam como protagonistas de suas trajetórias.

Os atendimentos coletivos, como grupos, rodas de conversa e ações comunitárias, são apresentados como estratégias centrais do PAIF. Eles contribuem para: ampliar percepções sobre direitos, fortalecer vínculos comunitários, promover pertencimento, identificar estratégias coletivas de superação das vulnerabilidades.

Ao entender que cada território possui cultura, dinâmica, redes sociais e formas próprias de se organizar, o CRAS consegue planejar ações mais efetivas, mais próximas das realidades locais e mais conectadas às necessidades concretas das famílias.

Território: o ponto de partida para o planejamento das ações

Outro eixo estruturante da Trilha 1 é a centralidade do território. Não se trata apenas do espaço físico onde as pessoas vivem, mas de um conjunto de histórias, relações sociais, modos de vida, identidades e redes de solidariedade.

A publicação enfatiza que:

  • O território deve orientar o planejamento das ações do CRAS.

  • Suas características: rurais, urbanas, ribeirinhas, periféricas, quilombolas etc, influenciam diretamente as vulnerabilidades e as potencialidades das famílias.

  • O conhecimento territorial favorece articulações intersetoriais com saúde, educação, organizações comunitárias, lideranças locais e instituições públicas.

Ao compreender profundamente o território, os(as) profissionais do SUAS conseguem construir respostas mais integradas, fortalecer a rede socioassistencial e ampliar o acesso das famílias aos direitos socioassistenciais.

Do acompanhamento das condicionalidades ao fortalecimento da proteção social

A grande contribuição da Trilha 1 é deslocar o foco do acompanhamento das condicionalidades como um fim em si mesmo para compreendê-lo como parte de um processo ampliado de proteção social.

Nesse sentido, o material reafirma que o CRAS: não é um espaço de fiscalização, não é um local de concessão automática de benefícios e muito menos um ambiente de cobrança.

O CRAS é um espaço de convivência, acolhida, escuta qualificada, fortalecimento de vínculos e participação social.

Quando as famílias vivenciam dificuldades no cumprimento das condicionalidades, isso deve ser entendido como um sinal de alerta, e não como uma falha. É nesse momento que o PAIF se faz ainda mais necessário: para construir caminhos possíveis, oferecer orientação, mobilizar recursos do território e desenvolver estratégias coletivas de apoio.

Uma metodologia que fortalece o SUAS e o protagonismo das famílias

A Trilha 1 apresenta um conjunto de orientações que dialogam com a prática diária dos profissionais do SUAS, fortalecendo uma atuação: integradaparticipativavinculada ao territóriocomprometida com a autonomia das famílias.

Ela reafirma o papel do PAIF como política pública transformadora, que reconhece que superar vulnerabilidades não é responsabilidade individual das famílias, mas um processo que envolve: participação comunitária, acesso a oportunidades, políticas públicas articuladas, valorização das identidades e culturas locais.

A Trilha 1 propõe uma mudança de olhar para o Trabalho Social com Famílias e Territórios:
menos burocracia e mais participação; menos foco no “cumprir exigências” e mais foco na proteção social; menos individualização e mais coletividade e pertencimento.





 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Fortalecendo a Gestão do SUAS – O que revela o novo guia para construção do PMAS 2026–2029

Plano Municipal de Assistência Social (PMAS) é o principal instrumento que orienta a organização, o financiamento e as prioridades da política de Assistência Social em cada município. Pensando em apoiar gestoras, gestores, equipes técnicas e conselhos na elaboração de um planejamento mais eficiente, participativo e alinhado às diretrizes do SUAS, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, em parceria com o UNICEF e a PUCPR, lançou a cartilha “Plano Municipal de Assistência Social: passo a passo para o planejamento local”.

A publicação apresenta, de forma didática, os fundamentos do planejamento na Assistência Social e reforça o papel do chamado “CPF do SUAS”, Conselho, Plano e Fundo, como base para a organização da política no território. O guia descreve as etapas essenciais do processo: diagnóstico socioterritorial, avaliação de planos anteriores, definição de prioridades, elaboração de metas e articulação com as políticas setoriais.

Com foco no ciclo 2026–2029, o documento destaca ainda a importância da vigilância socioassistencial, do fortalecimento da gestão, do financiamento adequado e da participação social. A cartilha oferece quadros, exemplos, roteiros e orientações práticas que ajudam os municípios a transformarem dados em ações protetivas reais, garantindo transparência, continuidade e efetividade na execução da política.

Mais do que um manual técnico, o material reafirma o compromisso com a proteção social, a dignidade humana e a construção de um SUAS cada vez mais democrático, qualificado e presente em todos os territórios.

Autora: Sayonara Pereira Ferreira, SUASeCEO Consultoria e Treinamento.
Confira a cartilha completa: Plano Municipal de Assistência Social (PMAS)



Construir um SUAS sem Racismo: Por que essa agenda é urgente e o que o Brasil já aprendeu até aqui.

Falar sobre racismo no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) não é um tema “extra”, nem um debate restrito a datas comemorativas. É, na...